Foto: Wesley Moura/Brasília Blog

Exclusivo: Governo Rollemberg é um equívoco, diz Tadeu Filippelli

Em entrevista exclusiva, o ex-vice-governador analisa a atuação de Rodrigo Rollemberg e afirma que o problema de Brasília é de gestão, não financeiro

Mesmo exercendo desde julho do ano passado a função de chefe de gabinete da Secretaria de Relações Institucionais (SRI) da Presidência da República, o ex-vice-governador do Distrito Federal, Tadeu Filippelli, conta que não se desliga um só minuto da política local.

Com um currículo em que consta ainda experiência como secretário de Obras no Governo de Joaquim Roriz, o peemedebista aponta a principal falha do seu sucessor no Palácio do Buriti, Rodrigo Rollemberg (PSB). Engana-se, contudo, quem pensa que ele está se referindo à inércia do socialista em executar serviços de infraestrutura importantes para a cidade, como pavimentação, alargamento de vias, colocação de viadutos área que Filippelli conhece muito bem. “O governador Rodrigo é um equívoco. Lamentavelmente, ele não é do ramo e quem está pagando o preço somos todos nós”, aponta.

Candidato assumido ao governo do DF nas próximas eleições, Filippelli conversou com a equipe do Brasília Blog. Na sabatina, não se esquivou de nenhuma pergunta. Nem mesmo as referentes a temas espinhosos, como a polêmica implantação das Organizações Sociais (OS’s) no sistema de saúde pública do DF. “Desestruturar um sistema de saúde e entregá-lo completamente pra OS’s é um absurdo”, lamentou ele. Confira os principais trechos da entrevista.

Brasília Blog – Como o senhor avalia o atual cenário em Brasília, com a ameaça de greve das 32 categorias que não receberam o aumento negociado no ano passado, isolamento do governo na Câmara Legislativa, inoperância em outros setores com segurança, desenvolvimento e, principalmente, a saúde pública? 

Tadeu Filippelli – Bom, o governo Rodrigo é um equívoco. Um equívoco que a cidade, neste momento, já percebeu, mas está pagando um alto preço. Ele em si, as opções que adota e a sua forma de governar mostram que não é do ramo. Lamentavelmente, ele não é do ramo e quem está pagando o preço somos todos nós.  Um governador que, dia a dia, está vendo a destruição de um sistema de transporte, como o metrô, com filas absurdas de gente para comprar um bilhete e outras mais absurdas ainda para embarcar nos vagões, porque só tem uma catraca funcionando nas estações. Hoje, novamente, o sistema do metrô está paralisado por defeitos, por falta de manutenção. E ele acha que está fazendo economia em não pagar a manutenção. E assim são outras coisas que chegam a ser absurdas, tais como ficar sem saber o que fazer com cinco restaurantes comunitários fechados. Ele (Rollemberg) não tem alcance para entender que o restaurante comunitário não é programa de governo, mas sim um programa de ação social. Não é nisso que o governo vai fazer economia. E, aí, você imagina o seguinte: em qualquer outro governo – não importa o governador que fosse -, qual estaria assistindo hoje ao que ele assiste todos os dias na Câmara Legislativa? Diariamente, há decretos legislativos dele caçados, vetos dele derrubados. Quer dizer, ele não tem a menor condição, não exerce a liderança política que deveria exercer junto à Câmara. O problema é gestão, e não financeiro. E ele tem demonstrado incapacidade para governar Brasília. Como é que eu entendo uma pessoa que sempre invoca a condição do rombo para poder justificar a sua incapacidade? Que rombo é esse, se o governo não pagou o aumento dado pelo Agnelo e nem as dívidas passadas? Tirou R$ 1 bilhão e 600 milhões do Instituto de Previdência dos Servidores do Distrito Federal (Iprev-DF).

Brasília Blog – De forma impositiva, sem abrir espaço para diálogos com servidores e entidades representativas ligadas à saúde pública, o governo tenta implantar as Organizações Sociais no Distrito Federal a todo custo. De forma aparente, vem minando o setor, com baixos investimentos tanto em pessoal quanto em infraestrutura. O que fica de mensagem nisso?

Tadeu Filippelli – É um equívoco. Enquanto estamos abrindo o jornal e vendo editais para alugar mais áreas, mais prédios no centro da cidade, gastando um absurdo, o Centro Administrativo, em Taguatinga, está pronto. Uma obra fantástica que não teve dinheiro público, ali não teve dinheiro público, ali é uma PPP (Parceria Público Privada). O caso da pediatria do Hospital Regional do Gama parece que é outra estratégia equivocada dele do quanto pior melhor. Só pode ser para justificar a entrada das OS’s em Brasília. Olha, se ele chegasse para os deputados, para a sociedade como um todo e fizesse um esclarecimento, uma proposta de que seria necessário algum tipo de contrato com uma ou outra entidade social, tudo bem. Mas desestruturar um sistema de saúde e entregar completamente pra OS’s, isso é um absurdo. No dia em que houver um tropeço neste sentido, nós vamos entender o seguinte: nunca mais vamos conseguir reconstruir um sistema de saúde no Distrito Federal.

Brasília Blog – Ele editou um decreto para reforçar a atenção básica nos hospitais, mas, na verdade, o efeito foi o contrário, uma vez que retirou os servidores que fazem este atendimento e os colocou nas áreas de emergência e  UTI (Unidade de Tratamento Intensivo). O governo não consegue se entender nem com os atos dele.

Tadeu Filippelli – Ele não consegue administrar a gasolina das ambulâncias da saúde. Imagina o resto de toda estrutura de um hospital que tem serviços de hotelaria, que tem lavanderia, que tem não sei o quê? Ele confunde tudo, mistura tudo. Dá o mesmo tipo de tratamento ao próprio médico que vai para uma sala de cirurgia, com determinadas atividades secundárias que poderiam ser muito bem equacionadas. São lamentáveis o pensamento e a forma de trabalho dele.

Brasília Blog – Como o senhor define este governo?

Tadeu Filippelli –  Um governo que não é do ramo.

Brasília Blog – Qual o conselho que o senhor daria para ele? 

Tadeu Filippelli – Voltar para atividade que ele tenha domínio e com que possa contribuir para sociedade.

Brasília Blog – Como se não bastasse a crise silenciosa que se instalou na segurança pública do DF, com policiais insatisfeitos e índices crescentes de criminalidade, o governador Rodrigo Rollemberg colocou mais lenha nessa fogueira de conflitos, ao convidar o ex-secretário de Segurança do Rio para assumir a pasta no DF sem mesmo executar o desligamento da atual chefe Márcia de Alencar. Como o senhor avalia esse gesto?

Tadeu Filippelli – Bom, segurança primeiro seria ele pedir desculpas para a secretária Márcia, porque, no momento em que a polícia militar e a polícia civil estão em choque internamente, em choque entre si e com o governo, ele ainda constrange a secretária de segurança ao fazer o convite. Isso eu acho que foi uma desatenção, isso aí dificulta, desmoraliza a secretária Márcia, tira dela a autoridade de que precisa para poder fazer o comando de toda a área de segurança. Portanto, o conselho que eu daria para ele é pedir desculpas à secretária Márcia.

Brasília Blog – No seu governo, destaque para a obra do BRT, que foi audaciosa e transformou o conceito de transporte público da região sul do DF. Porém, o que se percebe é que, na hora de fazer a sintonia fina, ele (governo) termina rachando todo processo no meio. Qual a leitura que o senhor faz disso?

Tadeu Filippelli – Você deu a solução: sintonia fina. Quando ele foi eleito e antes de tomar posse ele fez um gesto que eu achei de muita elegância, de grandeza, ao me visitar e conversamos um pouquinho sobre aspectos de governo. Eu falava para ele que o ponto que estava mais próximo de um grande feito, de um grande gol, seria aprimorar, aproveitar que, em setembro daquele ano, quer dizer, dois ou três meses antes da eleição, tinha vindo toda frota de ônibus novos para Brasília. Ônibus com ar condicionado para trechos mais longos, todos dotados de acessibilidade com elevador, com quatro câmeras de segurança, com duas telas de TV, com computador de bordo, GPS. Mais ainda: que ele não se impressionasse com a diminuição de ônibus em uma licitação, porque a licitação avalia por bacia, então o aumento de ônibus já estava licitado, bastaria uma simples correspondência para o empresário. Ele era obrigado a atender com 20, 30, 40 ônibus a mais assim que demandado, porque a licitação não foi por frota, foi por bacia e o governo até hoje não entendeu isso. “Ah, mas então por que não faria uma licitação, já com número de ônibus a mais?” Isso não é desejável por quê? Porque, na hora em que você faz isso, aumenta o imobilizado para compra da frota e na planilha de cálculo da tarifa, esta vai a um preço estratosférico. Então, você tem que ter a quantidade de ônibus na medida, para calcular a tarifa final. É esse o fato que este governo não reage, isso que eu falo, insisto, porque não tem experiência, não tem vivência, não são do ramo.

Brasília Blog – Em um eventual governo do senhor, qual o melhor caminho a seguir para tirar Brasília da inércia em que está submersa hoje?

Tadeu Filippelli – A primeira coisa seria o diálogo. Sentar, como fizemos, por exemplo, com a Polícia Militar, durante a noite até três horas da manhã. Conversamos abertamente, olho no olho, e foi acertado o que era possível e o que não era possível. Se houve algum equívoco no governo anterior, que nos sentemos, discutamos, achemos uma solução, encontremos uma resposta. O que não pode é se esconder atrás talvez de um eventual erro, se houve, para criar o caos que está sendo criado. Eu acho que falta é um líder no governo.

Brasília Blog – Como o senhor avalia a questão da isonomia entre as polícias Civil do Distrito Federal e a federal?  

Tadeu Filippelli – A Polícia Civil e a Federal nasceram no mesmo momento na história de Brasília, na história do Distrito Federal. Existia um antigo departamento, Departamento Federal de Segurança Pública. As duas polícias pertenciam a este departamento. Houve um determinado momento que os delegados puderam optar por continuar na PF ou ir para PCDF. Essa escolha foi feita e, em função disso, ficou acertado que as condições salariais, logicamente pelo nascimento, pela história, seriam as mesmas e isso tem sido feito até agora. Recentemente, uma votação no Congresso Nacional autorizou o aumento da PF, o que resulta em uma obrigação de o Governo do Distrito Federal enxergar que essa paridade é necessária. Existe o Fundo Constitucional fundamentalmente para pagar a segurança do Distrito Federal e, acessoriamente, a saúde e a educação. Mas por que ele não concede aumento para a polícia? Porque, não dando aumento para a PCDF, sobra mais dinheiro para ele gastar naquilo que seria acessório e não fundamental do Fundo Constitucional. Portanto, eu defendo a paridade da polícia civil com a polícia federal.

Brasília Blog – A cidade está totalmente parada. Infraestrutura zero.  O senhor é um homem de obras, o senhor construiu muito na condição de secretário de Obras e esta cidade, na época, teve uma grande transformação. Mas hoje a realidade é outra. O que pode ser feito hoje? Vamos conviver com isso mais dois anos?

Tadeu Filippelli – Eu entendo que a cidade não está parada, mas abandonada. Ela poderia estar parada, mas sendo mantida, o que não é o caso. Porque a gente tem que olhar o seguinte, insisto, às vezes, eu posso estar sendo muito detalhista, mas tem que chamar atenção. Você observa os gramados de Brasília, são um patrimônio. São fundamentais para a nossa qualidade de vida, para o Distrito Federal, para o turismo. A grama necessita de um cuidado diferenciado, a roçagem sistemática, o que a fortalece. O mato não aguenta esta roçagem, então este procedimento é feito para manter, inclusive, a qualidade da grama e fazer com que ela tome conta do terreno, também avançando sobre o mato. Se isso não é feito, o mato predomina sobre a grama. Nós estamos perdendo tudo. Se você vir os detalhes, hoje não é mais possível mecanizar a roçagem de grama em uma série de canteiros porque já estão todos nivelados. Ou seja: neles juntou sujeira que foi absorvida pela grama. Então, há na verdade um abandono. As calçadas e os meios-fios estão deteriorados. Então, não é a cidade parada. É a cidade abandonada. 

Brasília Blog – Em denúncia publicada recentemente neste portal, constatamos que muitos apoiadores do Governador Rollemberg estão respondendo ações na justiça. Alguns chegaram a ser presos. Outros, respondendo de alguma forma. Comente.

Tadeu Filippelli – Esse fato chega a ser interessante. O governo que insistia em jogar pedra nos outros, cuja base é desconstruir a dos outros, hoje eu tenho certeza de que poderá ter surpresas, muito antes do que possa imaginar.

Brasília BlogO senhor falou das pediatrias fechadas… Temos o Hospital da Criança e as ONGs, que são um modelo de OS’s. Porém, há uma fila de espera de atendimento de 16.662. O senhor acredita que essas organizações podem ser a solução para saúde em Brasília?

Filippelli: Eu vou fazer minhas as palavras do Rollemberg: falta gestão. Esta semana, a cidade acordou com a lavanderia e a farmácia do Hospital de Base trancados com cadeado, sem ninguém para abrir, sem ninguém saber onde é que estava a chave. Quer dizer, se uma situação dessas acontece ainda, é muito pedir a gestão de uma pediatria e a organização de um sistema complexo como este.